Ponto de partida
por Marina Bidoia
Navegar é ver o mundo num outro ângulo. Estou aqui porque já tive a sorte de ver vários pedaços de terra do mar. Das sortes, tive a grande de crescer numa ilha que hoje chamo, novamente, de casa, de onde escrevo.
Eu fui, fui longe e voltei. Sempre volto.
Pra Capital da Vela, que, muito além de títulos e nomenclaturas oficiais, é um lugar que convida à navegação. O vento, as ondas mansas, a correnteza que faz do canal quase um rio, com o sobe e desce da maré.
Chegar na ilha navegando é surpreendente. O mar faz uma curva e, de longe, vemos um maciço de terra. Ao mirar na ponta das Canas, ou da Sela, uma surpresa: esse monólito coberto de árvores que vemos de longe se divide em dois morros, quase como um vale. O canal de Ilhabela é curvo e convida a conhecer. É um abrigo natural, berço de várias
espécies, casa de muitas histórias.
Temos que sair da ilha para ver a ilha, já dizia Saramago¹.
Eu nasci fora dela, cresci correndo por ela, saí e voltei.
Diria que, ao escrever essa história, completo um ciclo. Chegamos em Ilhabela depois de meus pais lerem livros da família Schurmann e pensarem na possibilidade de morar a bordo. Eu e minha irmã fomos matriculadas na Escola Municipal de Vela; meus pais, em cursos de vela oceânica.
Quanto mais aprendemos sobre esse mundo, mais percebemos como é fascinante. Mas talvez o plano original não fosse o melhor. Acabamos escolhendo como casa a ilha, não o mar.
Meu primeiro contato com a vela foi rápido, intenso e me fez concluir, com toda a certeza que uma menina de 11 anos pode ter, que eu não gostava de barcos.
Aqueles “longos” seis meses de aula num Optimist me colocaram em muitas situações desconfortáveis e impensáveis para alguém que, até então, vivia em São Paulo e tinha como referência de desafio não me perder num shopping center.
O Optimist, veleiro em que aprendi a velejar, era um monotipo: a bicicleta de rodinha dos mares. Projetado para que crianças pudessem aprender a navegar com segurança.
Jamais subestime esses barquinhos. Parecem caixinhas de fósforo, mas são a base de tudo. Eu hoje sinto por não ter passado mais tempo neles.
No auge da sabedoria dos meus 11 anos, achava chato estar sozinha num pequeno veleiro que poderia virar, onde poderia entrar água e em que eu tinha que tomar todas as decisões sozinha.
Grande escola pra quem soube aproveitar.
Eu fui viver essa experiência de estar sozinha num pequeno barco apenas aos 24 anos, mas isso é um capítulo à parte.
Depois de anos vivendo na capital da vela, vendo meu pai velejando, ouvindo mil histórias sobre voltas ao mundo, campeonatos mundiais, competir com reis e rainhas, tempestades, calmarias, tudo parecia fantástico, mas não me via cabendo nesse universo.
Mesmo nunca tendo ouvido claramente “você não pode”, nunca me senti apta, qualificada, nunca senti que caberia nas histórias que ouvia. Sempre vinham de homens, adultos, e eu não me enquadrava em nenhuma das categorias.
Anos depois, morando em outro endereço, durante a faculdade, apareceu uma oportunidade para trabalhar na Semana Internacional de Vela de Ilhabela, atendendo o público em um estande da Secretaria do Meio Ambiente. Eu, estudante de arquitetura na época, precisei aprender o mínimo sobre espécies marinhas, o Arquipélago de Alcatrazes e as instituições que protegem tudo isso.
Nesse cenário, acabei conhecendo pessoas de diversas idades que velejavam, principalmente da minha idade, o que quebrou um mito na minha cabeça: não precisa ser adulto pra velejar.
Talvez ser mulher não seja fator impeditivo também.
Então recorri ao velejador mais próximo, meu pai, e perguntei se era possível participar de uma regata mesmo sem saber nada. Ele ficou intrigado sobre como, do nada, eu resolvi experimentar algo que, na cabeça dele, sempre esteve à minha disposição.
Aqui começa a aparecer um tema importante e recorrente em minha vida: a importância de ter referências, de ver nossos iguais em lugares que nem imaginávamos caber.
Nunca tinham me falado “não pode”, mas foi só quando eu vi pessoas “parecidas comigo” neste ambiente que cogitei tentar.
Importante colocar que minha família nunca teve um veleiro, então parecia ainda mais difícil. Mas, neste momento, eu descobri a comunidade náutica. Descobri que cada barco abre portas para muito além de seus comandantes, que precisa de tripulantes e que qualquer um, com disposição e contatos, pode se tornar um.
A porta é aberta, mas nem tanto.
É preciso mostrar seu valor.
No barco não cabe nada supérfluo. Se está a bordo, é importante.
Faça valer.
São muitas histórias entre a primeira regata e hoje. Nesta coluna, pretendo compartilhá-las.
Quando comecei a velejar, carregava sempre a mesma mochila e dizia que ela ia cheia de sonhos, voltava cheia de histórias.
Me tornei capitã amadora aos 22 anos de idade. Já naveguei mais de 10 mil milhas náuticas pelo Brasil e pelo mundo, todas no Oceano Atlântico, por enquanto.
Crescendo em Ilhabela, aprendi que, em espaços limitados (ilhas e barcos, por exemplo), a imaginação cresce por necessidade, sonhos nascem e planos acontecem.
Para sair. Para pensar além do que os olhos veem e as pernas conseguem correr. Para ver as coisas como são.
Crescer na ilha é viver com vontade de sair dela, pra ver o mundo e, principalmente, ver ela.
Das sortes da vida, ter Ilhabela como ponto de partida e chegada está no topo da lista.
É hora de organizar a bagagem para que novos sonhos caibam.
Muito prazer. Me chamo Marina Bidoia, sou arquiteta, velejadora, fundadora do projeto Ela na Vela e, agora, colunista do site Ilhabela.com.br.
Nos vemos pelo caminho. Bons ventos!
Referências:
1 – SARAMAGO, José. O Conto da Ilha Desconhecida. Lisboa: Caminho, 1997.